R$ 72 Bilhões em Ativos Biológicos em Apenas 1.2% do Território Brasileiro

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O setor de base florestal, atualmente, conta com cerca de 10 milhões de hectares de florestas plantadas, em sua maioria, composta pelo gênero Pinus e Eucalyptus (Área equivalente ao Estado de Pernambuco). Essas florestas plantadas são utilizadas como matéria prima no processo produtivo de diferentes segmentos industriais, tais como celulose, serrados e compensados, painéis de madeira, siderurgia, agronegócio, entre outros.

Com base no último levantamento da CONSUFOR, estes ativos florestais, sem incluir o valor da terra e benfeitorias, totalizam cerca de R$72 bilhões, valor comparável à soma do valor de mercado das duas maiores empresas do setor de celulose (Suzano e Fibria), que juntas somam cerca de R$82 bilhões.

Em uma análise da distribuição do valor do ativo biológico em nível regional (Figura 1), a região Sul detém cerca de 55 % do valor total (R$39 bilhões). Nessa região estão concentrados os maiores maciços florestais do gênero Pinus, que por sua vez, possuem um manejo com ciclos mais longos, geralmente acima de 15 anos. O principal objetivo desse manejo de logo prazo é a obtenção de toras de maior valor agregado (toras de maior diâmetro) e, consequentemente, com melhores preços de comercialização. O gênero Eucalyptus também pode ser manejado para ciclos maiores, nessa região, mas é menos comum.

FIGURA 1 – Distribuição do Valor dos Ativos Biológicos por Região x Distribuição da Área Plantada de Eucalyptus e Pinus

A região Sudeste detém cerca de 25% de participação do valor total (R$ 18 bilhões). Essa é uma região que possui predominantemente plantios de Eucalyptus, sendo o Estado de Minas Gerais responsável por 24% da área plantada de Eucalyptus do Brasil.

O manejo mais comum das florestas de Eucalyptus é de ciclos curtos, em média de 5 a 8 anos até o corte raso. Em geral, o principal mercado consumidor da madeira de Eucalyptus são as empresas de celulose, painéis de madeira e siderurgia (carvão vegetal), onde a necessidade principal é volume de toras passíveis de processamento (menores diâmetros) e não necessariamente toras de maior valor agregado (maiores diâmetros). Esse é um fator importante que justifica a relação de área e valor entre os gêneros Eucalyptus e Pinus, no qual o gênero Eucalyptus precisa de 3x mais área em relação ao gênero Pinus, para representar 51% do valor total dos ativos biológicos (Figura 2).

 

FIGURA 2 – Pinus x Eucalyptus – Distribuição de Valor e Área Plantada   

 

A análise comparativa das regiões nos dois últimos anos, mostra que um dos principais fatores que impactou na variação de valor dos ativos foi o preço de madeira (Figura 3).

 

FIGURA 3 – Variação Total e por Região (Ano 2017 x Ano 2016)

Em termos de Área Plantada (hectares)                                                   Em termos de Valor Total (R$)

 

Um exemplo claro desse impacto é a região Sul (representa mais de 50% do valor total), que apesar de uma redução de -2% em sua área total plantada teve uma valorização de +12% em termos de valor final. Nas demais regiões não foi diferente, os preços de madeira influenciam diretamente no valor final dos ativos biológicos.

O que contribuiu para essa variação de +12% na região Sul? Em termos gerais, as condições mercadológicas relacionadas às variações de preços de madeira. Apesar da queda de -2% na área plantada, a alta dos preços de madeira dos maiores sortimentos (maior valor agregado) contribui consideravelmente para esse resultado.

A região Centro-Oeste teve um impacto inverso, ou seja, um aumento de +8% em sua área plantada e uma desvalorização dos ativos na ordem de -6%. Essa variação negativa do valor tem relação direta com os preços de madeira da região. Esses, por sua vez, também vêm sendo gradativamente reduzidos pela menor dependência das empresas por madeira de mercado, tendo em vista que as florestas das grandes empresas da região estão atingindo a idade de corte raso. Além disso, o aumento da oferta de madeira na região também tem contribuído para a queda dos preços de madeira.

Com intuito de permitir ao leitor uma melhor compreensão da representatividade dos principais players dentro do setor florestal em relação ao valor total (R$ 72 bilhões), a CONSUFOR ranqueou os 30 maiores players do setor com base em seus demonstrativos financeiros.

As Top 5 (Fibria, Suzano, Klabin, CMPC e Eldorado) representam cerca de 24% do valor total em ativos biológicos no Brasil (17.2 Bilhões) com aproximadamente 1,6 milhões de hectares plantados (Figura 4). A valorização dos ativos biológicos das Top 5 foi de cerca de 43% nos últimos 4 anos, bem superior a valorização das Top 20, com apenas 36%.

 

FIGURA 4 – Evolução do Valor dos Ativos Biológicos – Principais Empresas

No Top 20, percebe-se que a representatividade em relação ao valor total do país aumenta para 31%, ou seja, a adição do valor do ativo biológico de mais 15 empresas aumentou a participação em apenas 7% em relação as Top 5. Cabe ressaltar que a análise dos demonstrativos financeiros visa apenas à utilização do valor final do ativo biológico publicado pela empresa. Em nenhum momento a CONSUFOR comparou as premissas individuais utilizadas na determinação do valor justo do ativo biológico porque cada empresa tem suas particularidades em relação a condução de suas florestas plantadas.

A recente fusão entre as empresas Suzano e Fibria, ainda em processo de análise pelos órgãos responsáveis, cria uma nova líder global na produção de celulose com capacidade produtiva de cerca de 11 milhões de toneladas/ano. Segundo o demonstrativo contábil de 2017, juntas, as empresas representam cerca de 51% do valor total de ativo biológico das Top 5 e mais de 1 milhão de hectares plantados. Em uma breve comparação de área plantada, somam cerca de 5x mais área plantada do que a segunda colocada (Klabin).

Os 10 milhões de hectares plantados com florestas de Eucalyptus e Pinus compreendem diferente produtores: pequeno, médio e grande porte. Os produtores florestais são divididos em duas categorias principais: independentes – quando a produção florestal não esta associada ao autoabastecimento, ou seja, pode ser direcionada ao mercado para abastecimento de qualquer indústria, e os integrados – quando a indústria é verticalizada, ou seja, a produção florestal é destinada principalmente ao autoabastecimento.

Em relação a valores de ativos biológicos, os produtores independentes respondem por cerca de 15% do valor total. Dentro dessa categoria, encontra-se uma subcategoria denominada TIMO’s (Timberland Investment Management Organization) e/ou Fundos de Investimento.

Os fundos já representam cerca de 8% do valor total de ativos biológicos e aproximadamente 50% do valor dos ativos biológicos dos produtores independentes. Uma fatia considerável de valor. Entretanto, essa participação dos fundos de investimento na propriedade de ativos biológicos poderia ser bem maior, caso não houvesse restrições legais a compra de terras por estrangeiro. Essa é uma restrição legal oriunda da década de 70 (revisada em 2010), e que eventualmente já foi discutida algumas vezes por diversos governos, mas sem qualquer parecer positivo de mudanças para os investidores estrangeiros.

Os R$ 5.7 bilhões em ativos biológicos dos fundos de investimento (sem considerar o valor das terras) concentram-se majoritariamente no gênero Pinus (62% do valor). Entretanto, quando se trata de área plantada, 68% do total é composto pelo gênero Eucalyptus (Figura 5).

 

FIGURA 5 – Distribuição do Valor Atual dos Fundos de Investimento – Por Gênero

Participação em Valor (%)                                                  Participação em Área Plantada (%)

Com as restrições impostas pela legislação brasileira à compra de terras por estrangeiros, uma prática comum no mercado é a compra da floresta com a futura devolução das terras ou até mesmo a parceria com empresas brasileiras na aquisição de terras ou terras+florestas. Apesar da instabilidade econômica do país, o investidor estrangeiro ainda vem se mantendo firme no setor de base florestal. Um dos fatores que corrobora essa decisão é o tamanho do ciclo florestal, de no mínimo 5-6 anos, ou seja, apesar das oscilações no curto prazo, o setor de base florestal acaba sendo pouco afetado por ser de longo prazo.

A participação dos fundos de investimento no montante total de ativos biológicos no Brasil pode parecer pouco significativa, mas quando estrategicamente bem localizados, tornam-se fundamentais no abastecimento de diferentes segmentos industriais. A concentração dos investimentos em Eucalyptus na região Centro-Oeste e Sudeste, que juntas somam mais de 50% do valor é explicado em parte pela estratégia de abastecimento das empresas de celulose nessas regiões (Figura 6).

 

FIGURA 6. – Distribuição do Valor Atual dos Fundos em Ativos Florestais – Por Região

Eucalyptus                                                                     Pinus

De maneira geral, não apenas os fundos, como os demais produtores florestais (independentes e/ou integrados) têm buscado oportunidades de investimentos no gênero Pinus na região Sul, em parte pela grande concentração de segmentos consumidores, assim como pela excelente adaptação climática do mesmo.

Baseado na dinâmica de crescimento dos ativos biológicos (aumento da área plantada e desenvolvimento de materiais genéticos de alta produtividade), nas condições mercadológicas regionais (preços de madeira e mercado consumidor), nos possíveis investimentos em marcha, nas expansões já realizadas e algumas expansões projetadas pelas grandes unidades fabris do setor de celulose, não é difícil de projetar para 2021 valores de ativos biológicos superiores a R$100 bilhões!

 

Adriane Roglin
M.Sc. in Forest Engineering
and Specialist in Business Finance

 

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