Resultado Econômico da Indústria Brasileira de Serrados

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A economia brasileira ainda se encontra em ritmo lento e os investimentos em produção estão muito baixos. O nível de endividamento das famílias está elevado e, com isso, o consumo geral de bens e produtos se mantém abaixo dos patamares pré-crise política e econômica. Este cenário nacional é uma contraposição do contexto mundial, que segue trajetória lenta e gradual de expansão em diversos setores.

No Brasil, a Indústria de Madeira Serrada sempre foi muito dependente das exportações, embora o mercado interno represente boa parte do destino final da produção brasileira. Com a economia brasileira fragilizada, é natural que a indústria de serrados enfrente dificuldades no momento atual.

Neste artigo vamos analisar o desempenho econômico desta importante cadeia produtiva: a indústria de madeira serrada. Para tanto, vamos usar os dados agregados em nível nacional, considerando empresas de todos os portes, que processam todos os tipos de gêneros florestais disponíveis no país (madeira tropical, pinus, eucalipto e etc.) e de qualquer nível de tecnologia embarcada / automatização.

Para fins de comparação, o leitor encontra inicialmente, na Figura 1, o desempenho econômico geral da Indústria da Transformação brasileira (da qual a Indústria de Serrados faz parte). Os números mostram que desde 2010 essas companhias têm vislumbrado uma redução de lucratividade, uma vez que os custos têm crescido acima do crescimento das receitas. O ponto de inflexão foi em 2014/2015, quando essa cadeia produtiva passou a trabalhar com margem negativa.

Já que o desempenho da Indústria da Transformação é um importante indicador da saúde da economia nacional, é correto concluir que a retração econômica brasileira é bastante séria, e que as indústrias estão passando por sérias dificuldades.

Consultando agora os dados relativos à Indústria de Madeira Serrada (Figura 2), temos um panorama ligeiramente diferente. Até 2013, a Indústria brasileira de Serrados vivenciou um período de forte mudança de mercado. Tradicionalmente focada no mercado externo, essa indústria sofreu um severo corte de demanda no período 2008 a 2011, em razão da crise financeira mundial, provocada pelos efeitos da bolha imobiliária norte americana. Com o colapso repentino dos principais mercados consumidores internacionais, a Indústria Nacional de Serrados viu sua rentabilidade cair.

A saída encontrada pela indústria, na época, foi concentrar esforços no mercado nacional. Essa estratégia começou a apresentar seus efeitos a partir de 2011, também em função da retomada da demanda mundial por produtos de madeira. Contudo, desde 2013 a crise financeira brasileira tem imputado à Indústria de Serrados um pesado fardo: a velocidade de crescimento dos custos de fabricação tem sido maior que o incremento das receitas com vendas. Com este panorama, a CONSUFOR projeta que, ao término de 2017, a Indústria da Madeira Serrada brasileira passe a apresentar anualmente resultado econômico deficitário.

É importante frisar que as análises aqui apresentadas se referem ao comportamento geral da indústria, numa média nacional. Como cada companhia possui sua particularidade, é perfeitamente natural que haja corporações com resultado econômico bastante satisfatório no momento atual, ao passo que outras estejam na iminência de parar as operações.

Como mencionado, o problema principal do desempenho econômico deficitário é que os custos têm crescido mais do que as receitas. As receitas podem cair por duas razões básicas: preços menores ou por menor volume de vendas. Estas razões não são excludentes e podem ocorrer simultaneamente. Como no contexto estratégico o preço de venda e demanda do cliente são variáveis de baixo ou nenhum controle gerencial (o mercado é quem determina estes aspectos), as atenções precisam ser direcionadas para os custos de produção, já que estes, pela mesma ótica da gestão estratégica, são plenamente gerenciáveis pela companhia.

A Figura 3 mostra, em linhas gerais, a estrutura de custos das Indústrias retratadas no presente artigo: Indústria da Transformação e Indústria de Madeira Serrada. Os números mostram que, em ambas as indústrias, os custos com mão de obra e matéria-prima representam aproximadamente 60% do custo de fabricação total. Nas serrarias, há maior intensidade do custo com trabalhadores, demonstrando que este tipo de indústria é mais intensiva em mão de obra do que a média nacional da Indústria da Transformação.

Ainda na questão dos custos de produção, a matéria-prima (tora) representa em média 35% do custo total da Indústria de Serrados. Esse patamar da Indústria de Serrados é menos expressivo do que o da Indústria da Transformação (45$). Porém, nas serrarias, o custo com Insumos e utilidades (energia elétrica, água, ferramentas de corte, afiação e outros) é bem mais relevante. Somados os custos de matéria-prima com os de insumos e utilidades, há equivalência de proporção nas duas Indústrias avaliadas (em torno de 47%). A variável “demais custos” engloba custos financeiros, outros gastos de fabricação e todos os demais desembolsos necessários à operação.

Os gastos gerais com mão de obra e com insumos e utilidades são os que, proporcionalmente, mais cresceram no período avaliado. O Banco de Dados da CONSUFOR mostra que a madeira em tora não é vilã neste contexto: na média nacional, a tora de Pinus cresceu apenas cerca de 15% (em ternos nominais) desde o início de 2015. No mesmo período, também em nível nacional, a tora de Eucalipto para serraria teve aumento nominal de preços inferior a 6%.

Já os gastos com mão de obra, em toda a Indústria da Transformação, têm crescido acima da inflação há pelos 4 anos, mesmo que isso não represente um aumento efetivo de produtividade na indústria. Ademais, dentro do componente “insumos e utilidades”, houve disparada de custos com energia elétrica nos últimos anos,  assim como em peças de reposição para o processo fabril.

Assim, como os cenários de curto e médio prazo não apontam para retomada favorável aos negócios no país, é imprescindível que as indústrias revejam atentamente sua estrutura interna de custos. É interessante notar que o bom desempenho econômico pode vir da racionalização dos custos, efetivamente, mas também de uma revisão do processo industrial para tornar a serraria mais produtiva. Se combinadas as ações, a indústria terá muito mais competitividade.

Marcio Funchal
Diretor de Consultoria

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